05 outubro, 2009

Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres


Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável.
Mas ah,
a falta de sede. Não havia senão faltas e ausências.
E nem ao menos a vontade.

Só farpas sem pontas salientes por onde
serem pinçadas e extirpadas
.
Só os dentes estavam úmidos.
Dentro de uma boca voraz e ressequida
os dentes
úmidos mas duros - e sobretudo a boca
voraz para nada.

E o nada era quente naquele fim de tarde eternizada pelo planeta Marte.

Clarice Lispector

Previsão do tempo

Corra e finja estar preocupada com o que a seguir irá embora.
- A seguir, aqui, veja as próximas notícias do dia.
- Eu sigo aqui, por enquanto.
- Por enquanto o clima continua instável com previsão de chuva
pela manhã, um pouco mais a tarde e tempestades a noite.
- Hoje o dia está bonito!

Eu (também) pedi as contas


De hoje espero (?)
Ou não, talvez seja o enterro
das memórias e entreolhares
mortos (afogados).
É como jogar uma moeda para o alto e vê-la explodir ao tocar
numa lâmpada verde, a única diferença é que ao voltar tudo acompanha,
teto, lâmpada, eletricidade e moeda, no meu rosto.
Admito que não é uma sensação
muito boa receber tanto carinho da física, sem química.
É, falta a química.
E... você... pode ver as paredes caindo?

03 outubro, 2009

Três pratos


Quais certezas você vai me dar se eu ficar? (Tempo)
Não, não precisa responder,
eu sei que elas não durarão muito, e você sabe...
Não sabe? Sabe. O aqui é o agora,
tanto podemos nos curvar ou nos manter
eretos olhando os olhos do mundo, com os nossos fechados.
Falo com clareza do amanhã, e ele é incerto,
mesmo com os planos e curvas ligando os acertos e declínios,
e é assim, vivemos no hoje planejando o amanhã
que pode ser completamente diferente,
e se não for ao menos vai haver atraso
nos segundos que a gente marcou.
Claro que não penso que amanhã deixarei de amar,
até porquê demorei tanto pra me firmar no
sentimento que não me vejo o deixando de uma hora pra outra,
então, trago comigo as duas certezas lógicas
que antes se resumiam em apenas uma.
Como numa apresentação de elenco admirem:
A morte e o Amor (à primavera). São minhas duas certezas,
por toda a vida, e pode ser um juramento, uma prova,
uma promessa (igual).
É real, mágico e descrente de semelhança,
infinitamente desgastante a partida num desencontro
casual de meras expectativas frustradas e noites de nuvens claras,
conversas e conversas aleatórias e findas no chão,
misturadas a areia e sem verdade (entendo).
Pudeste ver o brilho nos meus olhos?
Eles podiam saltar do meu rosto e cantar alegremente ao lado
do lixo junto ao gato de rua procurando comida (Ai, que fome!).

A explicação de tudo isso... Bem, não há.
E com todas as diferenças (iguais)
eu estou ereta diante das certezas,
falando com os olhos e sentindo o vento que passa por tudo
e para em mim.
Estou certa, nas idas e vindas,
um amor de três flores brotará aqui dentro
todos os dias, de chuva ou sol,
mesmo cobertos de neve as lembranças são mais quentes.
Mesmo eu (gato de rua) posso sentir o gosto doce daqui,
o gosto de amor recém preparado,
aquele que deixa a marca no prato depois de saboreado.

É que...
Não, depois eu...
Sim, eu quero ficar e...
Não, mas eu vou e...
É, eu vou deixar e...
Amar.

01 outubro, 2009

Longa primavera



Precisamos de intervalos,
curtos intervalos de dias ou semanas...horas.
Ouvimos os silêncios de nossas relações, sentindo
falta e sem fazer força pra lembrar,
muito menos para querer apagar.
Precisamos de tempo, eu entendo, tarde mas entendo.
E sei (agora) que a neve se forma nesses pequenos intervalos,
uma pequena camada que reveste os ângulos mas que derrete
quando os sorrisos se encontram no raiar do sol, à espera.
Haverão os desencontros,
as conversas fiadas de meio dia à meia noite,
meia lua e três corpos.
Melodias virão, espera e ama, espera, ama.
Vivemos por enquanto por nós mesmos, nos dias nossos e só
nossos (por enquanto) precisando respirar nossas confissões e estimular as saudades,
quantas... Pois é, de se entregar, amar de amor, na primavera mais longa. Eu amo!