27 abril, 2011

Ficando por lá

Dentro da minha solidão cabe uma vida toda, e nessa vida alguns medos, meus e dos que por aqui passaram deixando suas roupas, suas meias, suas dores pra juntar com as minhas. Mas até pra falar do nada eu precisei ser alguma coisa,
e confesso que fui, muitas.
Alguns me levaram pra longe e por lá fiquei, sem malas ou olhos de tinta, fiquei e não procurei voltar pra mim por que talvez fosse um caminho longo e sem volta. Voltar seria burrice.

01 abril, 2011

Vazio

O homem tem se perdido dentro do próprio espelho
Preguiça de caminhar, metas pra cumprir
Parece que guarda o amor engomado na gaveta

Joga isso pro alto
Chuta, morde, cospe, amassa, só não guarda
O que é bom foi feito pra ser usado (e o que não é também)

Não faz mais sentido silêncios eternos
Faz-se música das dores
Minhas, suas, inexistentes

Uma hora a gente cansa de ser vazio
É preciso se afogar no outro
Se perder num vazio ainda maior

Não importa se é poeta, músico, ator
O buraco é fundo e seco
A minha cicatriz não é maior que a sua

Perdeu a graça esperar
Ver a desistência nos olhos
Falar pra quem acha bonito e vira as costas

Se venda com moderação
Não espere sua vez de falar
Nem espere que alguém fale.

21 fevereiro, 2011

Respirando Barcelona

Não posso reclamar das asas que tenho, as que me mudam de continente, de rua, me põe dentro da mala junto das lembranças. Meu ninho é provisório, e essa minha vontade de absorver tudo e todos estava cada vez mais presente, e eu precisava. Era necessário alguns olhos para serem comidos, abraços para dar, trocar de ar e enfrentar um frio diferente (de dentro pra fora).
Ainda me sinto mais quente do que a cidade, e posso mudar o que toco, pude jogar fora aonde parei todos os vestígios de uma vida que não era minha. Eu sou, eu vou, estou. É perceptível a mudança, e continuo dizendo que a última semana pareceu um longo ano de inverno, e passou em um dia.
Gosto das janelas do meu corpo, do beijo no rosto com cheiro de vodca, das ruas que pareço conhecer, dos sons que os sentimentos tem, o poder de uma boa conversa e o desejo de outras. Aprecio a beleza dos que não sabem direito a diferença entre esquerda e direita, mas sempre tem um ponto de referência pra tornar o encontro possível.
Quero o que é meu, e o que ainda pode ser.

31 janeiro, 2011

Para um andróide sem par

Na hora da despedida eu disse pra ele algo como:
"Preciso me encontrar primeiro, depois te procuro."
As palavras fugiram, fizeram uma viagem da minha boca até os tímpanos dele, e nem sei se alguém mais ouviu ou entendeu o que realmente aquilo queria dizer. Era verdade, eu precisava ter pra poder dar. Ainda não conheci alguém que possa dar o que não tem ou ser quem não é; parece ser bem difícil sustentar o outro sem ter sua própria base, e isso eu nem tentei fazer.
Se não sou, não podemos ser. Acho que isso é fácil de entender, lendo, mas na prática as coisas são vazias, provavelmente sem respostas boas ou todas as outras explicações que achamos necessárias.
E que fique claro, memória é outro ponto.

Acabou

Afogue em mim o que te fez secar, afinal, nem sempre a sede acaba quando o copo está vazio. Eu preciso do que já acabou.